Ativismo na fotografia:

transformando imagens em crítica

Marcelo Brodsky, Artista Visual



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O PROJETO

COMENTÁRIOS SOBRE 9 IMAGENS QUE IMPRESSIONARAM O MUNDO

08 de Maio de 2017 3 0
Neste projeto, o aluno elaborou um ensaio sobre fotografias icônicas, conhecidas ou não, e fará comentários de como tais imagens foram transformadas para sempre em crítica. As opiniões aqui expostas são estritamente pessoais, e mostram o pensamento do aluno, que é inteiramente responsável pelas mesmas. Fica o questionamento aos demais membros da comunidade: qual destas fotografias mais causou impacto no leitor? O que você sentiu ao vê-las? Como você é inspirado por cada crítica aqui transformada em fotografia?

IMAGEM 1: (O HONORÁVEL QUE BAGUNÇA A TERRA) Começamos este projeto com uma das imagens mais impactantes do período anterior à Segunda Guerra Mundial. Esta fotografia foi tirada em 13 de junho de 1936 em Hannover, Alemanha. Funcionários de um estaleiro ouvem um discurso do psicopata facínora que governava a Alemanha naquele tempo (cujo nome sequer escreverei). Por lei, todos os alemães eram obrigados a fazer o nefasto gesto de saudação ao partido (levantar o braço direito a um ângulo de 30 graus com a palma da mão virada para o chão) para ouvir o tal “führer”; de fato, todos eles o fizeram, com exceção apenas de um bravo e corajoso resistente, marcado com um círculo na foto original. Observem a linguagem corporal desse homem, que se chamava August Landmesser: braços cruzados, ombros levantados, rosto franzido numa expressão de desprezo e até mesmo um sorriso de deboche, mostrando uma intensa desaprovação contra os absurdos que certamente estavam sendo vomitados em seus ouvidos. Certamente, a figura desse bravo herói merece o respeito e as homenagens de todos os que lutam pelos direitos da humanidade.

IMAGEM 2: (SENTAR PELOS SEUS DIREITOS) Uma das histórias mais fantásticas e inspiradoras da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos aconteceu com a prisão de Rosa Parks, em 1º de dezembro de 1955, na cidade de Montgomery, Alabama. Após um dia de trabalho, Rosa tomou o ônibus de volta para casa, onde se sentou na parte reservada aos negros, na metade traseira do veículo. Por lei, se houvesse a lotação da parte reservada aos brancos, toda pessoa de cor negra era obrigada a ceder seu lugar a um branco e se dirigir ao fundo do ônibus, onde seguiria viagem a pé ou desceria. Rosa não se levantou e recusou-se terminantemente a ceder seu lugar. Fez o que achava (e é) certo. Esta fotografia de Gene Herrick foi tirada quase dois meses depois, em 22 de fevereiro de 1956, quando Rosa, presa pela segunda vez, colheu suas impressões digitais na Delegacia de Polícia de Montgomery. Repare o contraste entre a feição de Rosa e do policial D.H. Lackey. Ele, trabalhando mecanicamente como um burocrata que aplica uma lei (seja ela de que conteúdo for), provavelmente inconsciente de que participava de um fato histórico; ela, com uma feição tranquila, firme e inabalável, certa do que estava fazendo, talvez até despreocupada, confiante de que receberia para sempre um lugar na história da luta pelos direitos humanos. E recebeu.

IMAGEM 3: (UMA ESCOLA E O FIM DE UMA ERA) Em setembro de 1957, começava o ano letivo 1957/58 nos Estados Unidos da América. Naquele momento, todos os estados já deveriam ter cumprido a histórica decisão de 1954 da Suprema Corte que determinava o fim da segregação racial no sistema de educação. Um dos estados que mais resistiram foi o Arkansas, onde a situação ficou extremamente tensa quando nove crianças negras começariam a frequentar aulas na Central High School, da capital Little Rock. Foi combinado que o grupo chegaria junto e entraria pela porta da frente da escola no dia 4 de setembro, quarta-feira. Porém, na noite anterior, os planos mudaram e o local de entrada foi alterado. Por uma falha de comunicação, Elizabeth Eckford, 15 anos, não foi cientificada e chegou ao primeiro local combinado, onde se viu sozinha. Logo foi cercada por uma turba enfurecida de outras crianças e adolescentes, todos brancos e racistas (que fique bem claro), que berravam todo o tipo de ofensas imagináveis, num verdadeiro desfile macabro da pior baixeza humana. Esta fotografia foi tirada pelo fotojornalista Will Counts, e é uma das mais famosas imagens da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Imediatamente, a visão do espectador se volta para o centro da imagem, onde se vê o rosto da garota Hazel Bryan, também de 15 anos; reparem no seu peito estufado, ombros para trás, rosto crispado de raiva, sobrancelhas arqueadas e boca escancarada do mais puro ódio. Logo depois, observamos o contraste com o rosto de Elizabeth, que apesar de aparentar estoicismo por baixo dos óculos escuros, está completamente apavorada. Só não foi linchada porque os repórteres a protegeram naquele dia. Elizabeth Eckford não conseguiu entrar na Central High School, desistiu e voltou para o ponto de ônibus, amparada por uma única mulher branca, uma ativista pelos direitos humanos (que depois teve que se mudar para o Canadá). Dias depois, o Presidente Dwight Eisenhower mandou um batalhão de 1.500 homens do exército escoltar os estudantes negros, sob virulentos protestos da população “branca” local, que teve que ser enxotada em vários momentos, como se fossem insetos peçonhentos. A tensão durou todo o ano letivo. Os negros queriam apenas estudar. Os brancos racistas estavam vendo o mundo injusto em que viviam desmoronar para sempre. Ainda bem, pois a mudança só é válida quando o passado não mais se repete.

IMAGEM 4: (AJUDA DO PADRE) Nesta imagem impressionante tirada pelo fotógrafo Hector Rondón Lovera em 4 de junho de 1962, há um exemplo contundente da relação da imagem e da palavra. O contexto é de uma insurgência contra o governo venezuelano naquele ano: por quatro dias, soldados do exército leais e rebeldes combateram de forma intensa e agressiva pelas ruas de da cidade de Puerto Cabello. Apesar de ciente do perigo que estava correndo, o Capelão da Marinha Luis Padilla saiu pelas ruas, fazendo a extrema unção nos combatentes que encontrava agonizando pelo caminho. De repente, um soldado ferido surge e agarra-lhe a batina, implorando por algumas palavras de conforto espiritual em seus últimos momentos de vida. A tensão captada é enorme. Pode-se ver que o soldado jogou sua arma ao chão, uma poça de líquido, e inúmeras balas deflagradas que os rodeiam. Porém, o mais importante da fotografia é o letreiro no imóvel logo atrás dos homens, que vem a ser um açougue. Lê-se a palavra "CARNICERÍA", que em espanhol tem o duplo significado de "açougue" ou "carnificina", dependendo do contexto. Esta fotografia não teria a mesma carga dramática sem a palavra, que é elemento indissociável de seu quadro. Ganhou o Prêmio Pulitzer de 1963.

IMAGEM 5: (TRÊS PALAVRAS NO VIETNÃ) Esta fotografia foi tirada em 18 de junho de 1965 pelo fotojornalista Horst Faas (Associated Press), na Guerra do Vietnã, quando documentava a rotina do 173º Batalhão de Brigadas Aéreas do exército americano. Em 1965, a Guerra começava a esquentar pra valer quando o Presidente Lyndon Johnson enviou maciçamente tropas para o conflito no Vietnã. Era costume dos soldados escrever em seus capacetes curtas frases sobre quem eram e o que estavam fazendo ali. O que faz esta fotografia um impressionante documento crítico é o contraste, aliado à interação com a palavra. Como o enquadramento da foto é muito fechado, vemos apenas o belo rosto de Larry Wayne Chaffin (19 anos), de um olhar ao mesmo tempo angelical e irônico; a boca do jovem lembra bastante a boca da Monalisa, com seu sorriso eternamente enigmático. Desviando o olhar para o capacete, lemos a frase “WAR IS HELL” , que impacta profundamente o observador, pois é a única indicação de que se trata realmente de um contexto de guerra, e que o sarcástico soldado já deve ter visto muitos horrores no período que ali esteve.

IMAGEM 6: (ENFRENTANDO O PIOR DA HUMANIDADE) Esta fotografia tirada por Hans Runesson mostra um contraste bastante interessante. Trata-se de uma manifestação neonazista na cidade sueca de Växjö, em 13 de abril 1985. De repente, uma mulher invade a marcha, e golpeia a cabeça de um dos "manifestantes" com uma bolsa. A postura corporal e a expressão facial desta mulher demonstram que ela nutria profunda ojeriza contra todo o conteúdo daquela demonstração. Este é o tipo de imagem que nos faz pensar: quem tem mais ódio? Os neonazistas com feição tranquila ou a mulher que bate com a bolsa? Seria justa tal explosão de ira? As respostas para tais perguntas são objeto de um eterno debate. Entretanto, as motivações dos personagens principais da foto devem ser conhecidas. A mulher se chamava Danuta Danielsson; judia de origem polonesa, sua mãe sobreviveu a um campo de concentração; morava na Suécia há alguns anos, depois de ter se casado com um sueco; mentalmente instável, acabou se suicidando alguns anos depois. O homem que levou a bolsada na cabeça se chamava Seppo Seluska, militante neonazista (foi só isso que conseguiu ser na vida). Alguns meses depois da foto, torturou e matou um homossexual, razão pela qual foi preso e condenado por assassinato. Como se nota, um representante do mais baixo nível do gênero humano, que, ao contrário do homem que assassinou, pôde escolher seu destino.

IMAGEM 7: (O REBELDE) Esta é talvez a imagem mais conhecida de todo o século XX. O local é a Praça Tiananmen (Praça da Paz Celestial), em Pequim, China, no mês de junho de 1989. Manifestantes pró-democracia foram massacrados naquela praça no dia 4 de junho. O fotógrafo Jeff Widener, da Associated Press, fora mandado para cobrir as consequências do evento. Estava na janela do sexto andar do Hotel Beijing, fotografando o caos que se seguia. De repente, uma fila de tanques de guerra chamou sua atenção: na frente dos veículos, um homem magro, vestindo camisa de manga comprida branca, calça preta, sapatos e pacotes nas mãos desafiava o exército chinês; a colossal desproporção entre quem representa a opressão e quem a enfrenta é impressionante, e transforma essa fotografia na própria concretização da crítica. Os tanques ainda tentaram desviar do homem, mas ele os seguiu e até mesmo subiu no primeiro tanque por alguns segundos. Nunca se soube como era o rosto dessa pessoa, que sentimento sua face mostrava; nunca se soube seu nome nem o que aconteceu com ele logo após. Seu ato de bravura anônima certamente ainda ressoa profundamente na alma de todas as pessoas que têm plena consciência de que a injustiça pode vir de qualquer lugar, de qualquer regime de governo.

IMAGEM 8: (O MURO DE BERLIM) A História é conhecida por todos: em novembro de 1989, o muro de Berlim caiu. Os assombrosos acontecimentos daquele mês emblemático foram apenas o grande final de um processo que já havia começado anos antes, mas que tomou proporções dramáticas no decorrer daquele ano. Eu era criança naquele tempo, e havia aprendido na escola que existiam duas Alemanhas: Alemanha Oriental e Alemanha Ocidental, e que a cidade de Berlim tinha um muro que dividia os dois países. Ainda no verão, muitos alemães orientais se dirigiram em massa para a Hungria, país da cortina de ferro para onde lhes era permitido viajar, apenas para cruzar a fronteira com a Áustria, e ali ter a liberdade. No mês de setembro, a migração estava começando a sair do controle. Aquele outono começou tenso na Alemanha Oriental, com muitas manifestações pedindo liberdade. Na noite de 9 de novembro (quinta-feira), o governo Oriental havia decretado que, a partir da meia-noite, os cidadãos poderiam viajar para o lado Ocidental sem dar explicações. Foi o suficiente para uma multidão se reunir nos postos de fronteira (checkpoints), esperando a hora. Do lado ocidental, muitos foram observar seus compatriotas cruzarem a fronteira. A madrugada começou com berlinenses de ambos os lados com martelos, picaretas e enxadas pondo abaixo o muro que os separou por por 28 anos. Há muitas fotografias e vídeos do evento, talvez um dos fatos históricos mais documentados até então. Escolhi uma fotografia tirada pelo fotógrafo americano Peter Turnley, no domingo 12 de novembro de 1989. Um rapaz está sobre o muro, com uma expressão de comemoração, boca aberta e mão direita fechada, como se estivesse montado em um animal. Pelas roupas (jaqueta de couro, calça jeans, tênis e o cabelo espetado), presume-se que se trata de um alemão ocidental, que aparentemente sequer tinha a idade do muro (28 anos), provavelmente feliz pela liberdade de ver pela primeira vez membros da família que moravam do outro lado, ou simplesmente brindando a reunificação de seu país depois de quase 60 anos de uma sequência nefasta de Guerra, terror do nazismo, outra Guerra e Separação. Uma nação inteira finalmente se encontrava consigo mesma.

IMAGEM 9: (WE ARE FAMILY) A última fotografia analisada vem dos Estados Unidos da América, feita em abril de 1990 num hospital de Columbus, Ohio. Um jovem homem de 32 anos está acamado, com o corpo completamente consumido pela AIDS, desenganado e em seus últimos momentos de vida. Ele tem um aspecto cadavérico, as maçãs do rosto estão afundadas, o olhar seco, já desconectado do mundo que o cerca. Ao seu redor, vemos a comovente imagem de seus familiares em profunda dor pela perda iminente de um ente querido: o pai, chorando deseperadamente, consola o filho, acariciando-lhe o lado direito da face com uma mão e segurando seu cotovelo com a outra, como se segura uma criança. Mais à direita, a irmã e a sobrinha se abraçam desconsoladamente. A imagem é forte, atroz, cruel, e assustadoramente humana; é impossível não se emocionar. Uma “Pietà” dos tempos modernos. Foi feita pela estudante de jornalismo Therese Frares, e publicada sete meses depois na revista LIFE; é tida como a imagem que mudou a consciência crítica dos americanos a respeito da ainda desconhecida AIDS, doença que naqueles tempos era rapidamente fatal e cercada de preconceitos. O homem é questão é David Kirby, ativista pelos direitos humanos e assumidamente homossexual, que se afastara da família anos antes. Depois de descobrir-se portador do HIV passou três anos lutando contra a doença; já em estado debilitado de saúde, foi novamente acolhido pelos familiares para morrer em sua companhia. Esta poderosa imagem mostrou que doentes de AIDS também têm família, que também são amorosos, que são, enfim, humanos, o que ia de encontro a muitas opiniões conservadoras da época, e que até hoje existem, insistindo em negar humanidade a quem é diferente.


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